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Crise bancária derruba presidente do Paraguai
Santiago Peña renuncia, sofre impeachment e escândalo envolve US$ 850 milhões em recursos públicos
Escândalo do Ueno Bank deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso às contas, provocou protestos e levou à prisão de executivos; Ministério Público investiga operações suspeitas de crédito e uma suposta fraude de US$ 74,4 milhões
A crise financeira envolvendo o Ueno Bank provocou uma das maiores turbulências políticas recentes do Paraguai. Nesta quinta-feira (5), o presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia ao cargo, em meio à pressão popular, à perda de apoio dentro do próprio partido e ao avanço de um processo de impeachment no Congresso.
Mesmo depois do anúncio da saída, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, o libelo acusatório contra o presidente. Foram 78 votos favoráveis ao impeachment. A decisão encaminhou o processo ao Senado, que precisa de uma maioria de dois terços para aprovar a destituição definitiva.
O futuro político de Peña ainda depende das decisões do Congresso. Até as 15h50 desta quinta-feira, no horário de Brasília, não havia confirmação da conclusão da votação sobre a aceitação formal da renúncia nem da posse do vice-presidente Pedro Alliana.
A crise começou após o Banco Central do Paraguai determinar, em 3 de novembro, a abertura de um procedimento de resolução do Ueno Bank. A autoridade monetária identificou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo legal exigido, depois de ajustes realizados nas demonstrações financeiras durante um processo de regularização.
A medida deixou aproximadamente 3 milhões de clientes sem acesso normal às contas bancárias, em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes. O banco também concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos de órgãos e instituições públicas, incluindo recursos previdenciários e fundos de saúde.
INVESTIGAÇÃO APONTA SUPOSTA OPERAÇÃO DE US$ 74,4 MILHÕES
Um dos episódios mais graves investigados pelo Ministério Público paraguaio envolve uma suposta simulação de venda de uma carteira de créditos no valor de US$ 74,4 milhões.
Segundo a investigação, o Ueno Bank teria transferido essa carteira de empréstimos para a empresa Vinanzas S.A., que, conforme a hipótese dos investigadores, também estaria vinculada à própria instituição financeira.
O Ministério Público identificou que a empresa possuía apenas US$ 93,8 mil em saldo antes da operação. Entretanto, em 15 de junho deste ano, recebeu um aporte de US$ 76,06 milhões. Horas depois, utilizou os recursos para adquirir a carteira de créditos do banco.
A investigação aponta que o dinheiro utilizado na transação teria origem em empréstimos concedidos pelo próprio Ueno a empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, conglomerado controlador da instituição.
Entre as empresas mencionadas estão Technoma, La Tropa Fletes, HD Invest, Satec e Factopar.
Na avaliação dos investigadores, a operação pode ter sido utilizada para ocultar a real situação patrimonial do banco, uma vez que a carteira de créditos teria sido adquirida com recursos originados, direta ou indiretamente, da própria instituição.
O Ministério Público também identificou operações de crédito consideradas irregulares, com valores elevados em relação à capacidade financeira das empresas beneficiadas, garantias insuficientes e problemas na documentação.
A acusação apresentada contra 27 pessoas aponta possíveis crimes de conduta indevida em situações de crise, lesão de confiança, tentativa de estelionato e violação das obrigações de escrituração contábil.
Conforme os documentos apresentados pela Promotoria, os saldos pendentes das operações examinadas chegam a US$ 166,98 milhões e 343,15 bilhões de guaranis. Esses valores representam operações sob investigação e não podem ser tratados automaticamente como prejuízo definitivo.
OITO EXECUTIVOS DETIDOS E MEDIDAS JUDICIAIS
O escândalo também provocou medidas contra dirigentes e ex-dirigentes do banco.
Oito pessoas ligadas à instituição foram detidas, incluindo o fundador Federico Miguel Vázquez Villasanti e o presidente Juan Manuel Gustale.
Nesta quinta-feira, o juiz Rodrigo Estigarribia determinou a prisão preventiva de Miguel Vázquez e de outros ex-dirigentes da instituição, entre eles Juan Manuel Gustale, Julio Daniel Rey Fernández e Alejandro Gómez Abente.
Outros investigados receberam medidas cautelares diferentes, incluindo prisão domiciliar com monitoramento eletrônico.
O Ministério Público também solicitou o bloqueio de contas bancárias e a indisponibilidade de bens dos investigados.
As medidas judiciais não representam condenação. As responsabilidades individuais ainda deverão ser apuradas durante o processo criminal.
RECURSOS PÚBLICOS E LIGAÇÕES COM O PRESIDENTE
Outro ponto central da crise envolve os recursos públicos depositados no Ueno Bank.
A instituição acumulava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos de órgãos e entidades estatais, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social e de fundos ligados à saúde e à infraestrutura energética.
O volume expressivo de dinheiro público concentrado no banco aumentou a pressão sobre o governo e as autoridades responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro.
A relação política também ganhou destaque porque Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025.
Além disso, o presidente nomeou Carlos Carvallo, que havia presidido a financeira que deu origem ao Ueno Bank, para comandar o Banco Central do Paraguai em 2023.
Carvallo deixou o cargo na terça-feira (3), depois do início da crise.
A oposição acusa Peña de conflito de interesses, omissão diante de irregularidades financeiras e possível proteção política à instituição. O presidente nega irregularidades relacionadas aos seus antigos vínculos empresariais e afirma que eventuais responsabilidades devem ser apuradas pela Justiça.
Até o momento, não há comprovação judicial de que Peña tenha participado das operações financeiras investigadas.
QUANTO OS CORRENTISTAS PODERÃO RECUPERAR?
O Banco Central do Paraguai estabeleceu que os depósitos possuem garantia de até 75 salários mínimos mensais, limite equivalente a 228,3 milhões de guaranis, aproximadamente US$ 38 mil por pessoa ou empresa em cada instituição financeira.
A cobertura é calculada por depositante e por banco, e não individualmente para cada conta.
Segundo informações divulgadas pela imprensa paraguaia, os pagamentos antecipados pelo Fundo Garantidor de Depósitos começaram a ser organizados nesta quinta-feira, com previsão de conclusão em até cinco dias úteis.
A garantia protege a maior parte dos depositantes, mas os valores que ultrapassam o limite legal ainda dependem da recuperação dos ativos e dos procedimentos de resolução da instituição.
O Banco Central informou que pretende transferir contas e preservar os ativos existentes para proteger os clientes e garantir a estabilidade do sistema financeiro.
PROTESTOS E IMPACTO ECONÔMICO
A crise provocou manifestações em Assunção durante os últimos dias. A população foi às ruas para exigir a devolução dos depósitos, responsabilização dos dirigentes e explicações sobre a fiscalização do banco.
Além dos correntistas, funcionários do Ueno e de empresas vinculadas ao Grupo Vázquez também protestaram. Trabalhadores relataram dificuldades para receber salários e verbas rescisórias.
A situação preocupa investidores e autoridades econômicas porque o Paraguai vinha construindo uma imagem de estabilidade institucional e segurança para investimentos estrangeiros.
O episódio também tem repercussão no Brasil, que mantém relações comerciais e investimentos importantes no país vizinho, especialmente nos setores de energia, indústria, agronegócio e comércio.
A crise do Ueno Bank deixou de ser apenas um problema de uma instituição financeira. Tornou-se uma investigação sobre a administração de recursos públicos, a fiscalização bancária e as relações entre o poder político e o setor privado.
O desfecho dependerá da recuperação dos recursos dos depositantes, da apuração das responsabilidades e das decisões do Congresso paraguaio sobre a renúncia e o processo de impeachment de Santiago Peña.
